Minhas queridas leitoras, sofro, sofro como um doente desprovido de seu remédio. Como um sedento sem água e um faminto sem comida. Sofro por que não tenho dinheiro para pagar um windows original e, por isso, meu Word acabou de expirar, deixando-me só, sozinho, solitário nesta maldita internet. Por isso excuso-me, novamente, de postar neste digníssimo blog, pois insisto em provê-los um bom serviço que não pode ser atingido sem meu precioso Office.
“Debaixo de nós nada mais se via senão uma tempestade negra, até que, olhando para oriente, entre as nuvens e as vagas, divisamos uma cascata de sangue misturado com fogo, e próximo de nós emergiu e afundou-se de novo o vulto escamoso de uma serpente volumosa.”
_William Blake
Dizem que os melhores homens ficam com as melhores mulheres. Pouco sei sobre isso. Até pouco tempo atrás nunca tivera mulher alguma e, agora, ainda assim, não posso me dar ao prazer de escolher qualquer uma. Entretanto, destas poucas, eu posso deliciar-me da forma que quero e onde eu quero. Subvertendo-as aos meus caprichos, às minhas vontades. Poderia matá-las a qualquer instante, ou mesmo fazê-las se matarem, mas aquela tortura interminável, aquela agonia em seus olhos encolerizados muito mais me atraiam que olhos mortos e sem vida. Muito me atraiam…
Entre uma tragada e outra de charuto vou me lembrando nitidamente, cada vez mais, de cada presa minha. Do sétimo andar de um apartamentozinho medíocre que eu alugo com a merreca que eu espero que as horas passem para que eu saia novamente. Hoje é uma noite especial. A noite tem um efeito doce em mim. Doce como a cicuta que inebria os sentidos e nos atormenta com a morte. A noite me transforma em um homem de verdade, ao contrário da odiosa luz do dia e suas maquinações vis e diabólicas. De dia eu sou a presa.
Nem me lembre do dia! Aquela vida intragável, a dor lacerante e reprimida de uma existência vazia e sem sentido. Uma quantidade enorme de pessoas que me enojam a todo instante, que me enojam! Servindo de empregado em uma grande loja, como um serviçal comum, um homem com o meu sangue! Vendo centenas de pessoas se esbanjando com suas toneladas de dinheiro, que conseguem sem ao menos suar, que nem mesmo tem o trabalho de sair de casa! E eu, sem dinheiro, sem chance de usufruir de coisa alguma do local onde eu dou meu suor! Que vida! Que vida! E aquela Helena, aquela vadia cretina que me atormenta todas as manhãs, se eu a apanhasse, Deus me proteja do resultado! Vadia! Mandava-me fazer todo tipo de trabalho inútil e imundo, sob a capa de boa chefa e de caridosa mulher. Aquela personificação do mal. Mas eu obedeço, obedeço, porque é de dia! Eu obedeço de cabeça baixa porque Deus só me dá forças à noite. Mas hoje… Ah, hoje sim, será diferente. Tudo será como deveria ser. Tudo estará em seu devido lugar.
Findo o charuto e um copo de uísque barato, e depois de alguns minutos para esfriar a cabeça, observo o relógio na parede rachada e úmida. São duas da manhã, em pleno sábado, e é agora que minha caçada começa. Deixo de lado as paredes infiltradas e aquele cheiro decrépito de mofo que infesta meu colchão e desço as escadas, que no prédio não há nem uma merda de elevador para a gente fingir que tem dignidade. Mas não me deixo levar, agora há foco, há objetivo, todo o ódio convertido em uma única antífona gloriosa. Hoje Helena pagaria por seus crimes e se tornaria uma nova pessoa. Porque este era meu papel na Terra, punir aos que não são dignos do amor de Deus, esta era minha função… Minha função!
Helena era uma vadia bem pior do que aquelas que eu costumo punir diariamente e é por isso que a noite será especial. Na minha cabeça passo e repasso cada segundo que compartilharei com ela, desde o momento de nosso encontro até o momento em que eu a abandonarei na sarjeta imunda para que o mundo saiba de seus crimes. Penso na Igreja, em seu corpo, em seu sangue. Seus crimes? Helena traía o marido com um meninão qualquer que mal tinha se formado em Direito na USP, que de advogado só tinha a carteira da OAB. Ela era enxuta, de cabelo curto, loiro e liso. Tinha o rosto arredondado pela idade e lábios não menos úmidos e sedentos que aqueles das prostitutas nas ruas, sempre abertos a outros lábios e a emoções mais fortes. Trajava sempre vestes finas e de muito bom gosto, comprados nas boutiques mais caras de Paris e Londres, combinando com todo tipo de jóia fina que, juntas, gerassem um pouco de volúpia em todos ao seu redor, sejam eles homens ou mulheres. Era pecaminosa até no pronunciar das palavras, com um leve sotaque francês inventado, sussurrando como se quisesse seduzir. Usava sempre um perfume doce como o dos lírios do campo, aquele cheiro de natureza úmida que nos inunda de frescor. Todo aquele corpo, que eu repudiava e desejava ao mesmo tempo, era podre por dentro. Ela era toda uma carcaça sem alma e cabia a mim restituí-la da graça. Se não exagero, ela foi meu primeiro amor. Mas não por isso merecia sair sem punição. Merecia meu ódio e meu sangue fervia quando eu escutava seu nome, quando ouvia sua voz, quando a vida. Ela era uma vadia imunda.
O meninão chamava-se Fernando. Contava vinte e sete, Helena chegava aos quarenta e dois. Era belo, sim, se me lembro bem, cortejava todas as mulheres que encontrava, traçava metade delas, recebia dinheiro das que, como Helena, sentiam-se agradecidas pelos prazeres que o moleque as concedia. Fernando sempre freqüentava as altas rodas da elite paulista e vivia às custas destas mulheres mais velhas que precisam desesperadamente de um pouco de atenção, carinho e sexo, principalmente. Seguia sua vida, depois de formado, apenas desta forma: Seduzindo. Fernando era um Don Juan das noites paulistanas, e todos sabem o que acontece com o homem que se mete a conquistador. Ele acaba se dando mal.
Notavelmente, os maridos destas mulheres são velhos decrépitos e impotentes, donos dos maiores impérios do Brasil, das maiores indústrias, das maiores marcas, podres de rico, mas com idade para serem avós. Helena não era diferente. Entendam bem. Helena era mulher do dono da maior fábrica de móveis e artigos “para casa”, como ela mesma dizia, do Brasil. Seu marido, entretanto, não conseguia satisfazê-la e, mesmo que conseguisse, ela provavelmente não gostaria. Este homem chamava-se Alberto, e na época chegava aos cento e cinqüenta quilos, uma notável marca para um homem com um metro e setenta. Ele, entretanto, desejava-a todos os dias há muito tempo, desde que casaram, e não se importava em atender aos caprichos da esposa, desde que, de quando em quando, ela atendesse aos seus, mesmo contra sua vontade. Eram todos indignos e ingratos. Bastardos!
O sangue me ferve quando me lembro daquela imunda nos braços de Fernando. Suas atitudes deixaram de ser ternas e tornaram-se voluptuosas e dissimuladas perante mim. Nada que me dizia tinha graça, tudo eram impertinência e provocação. Mal sabia ela, que agora, eu estava perto, aproximava-me como uma pantera, sorrateiramente, despercebido pelos olhos do mundo, e pelos olhos dela… Pelos olhos dela, que sempre me ignoraram.
Sabia bem o horário que sairia da casa de Fernando e, por isso, coloquei-me ali, por algum tempo, esperei, esperei, e, enfim, ela saiu. Estava sozinha, andando até o outro lado da rua para entrar em seu carro, aflita, olhando para todos os lados com medo de que alguém a encontrasse naquele reduto, apesar de um sorriso de satisfação visível. O apartamento de Fernando era em um ponto pouquíssimo movimentado durante as noites, para manter-se discreto em relação às suas clientes. Por isso foi fácil, foi muito fácil abordá-la. Quando ela se encontrava no meio da rua comecei a correr freneticamente em sua direção, sedento pelo seu sangue, borbulhando de adrenalina. Apanhei sua cabeça com apenas uma mão e, antes que ela pudesse gritar alarmada com a situação, naquele silêncio trágico que ocorre quando ficamos sem ar por um instante, de puro e perfeito medo, acertei sua cabeça no carro, fazendo o alarme disparar e gerando um pequeno amassado. Ela apagou. Apanhei a chave no chão e desliguei-o. Sutilmente coloquei-a no carro, acariciando seus cabelos cheirosos e macios. Dirigi até o local onde ela haveria de ser purificada, estando Helena absolutamente apagada.
A Igreja de São Judas estava abandonada há aproximadamente três anos devido a uma infestação de cupins em sua base. Durante todo este tempo a prefeitura lutava para derrubá-la, mas os fiéis não permitiam, de forma alguma, que sagrado local fosse derrubado. Com razão, a Igreja era magnífica. Helena, que começava a despertar agora, estava amarrada pelas mãos e pelas pernas em forma de X, nas pilastras próximas, nua, mas sem mordaça. Não era necessária uma mordaça, o local era absolutamente vazio, no topo de um pequeno monte, afastado da cidade, ela poderia gritar o quanto quiser, o quanto mais o fizesse, melhor seria. Eu trajava uma máscara de Jesus Cristo e uma túnica branca, como sempre o fazia para purificá-las.
_Meu Deus! Onde estou?! Tire-me daqui! Tire-me daqui, agora! Meu Deus, meu Deus, meu Deus! – Seu nariz estava sujo de sangue coagulado, mas seu corpo era de uma pureza branca quase incompreensível. Era nela que se confundiam os homens, seria um anjo ou um diabo? – Senhor, eu lhe pago o que quiser, meu marido é rico, ele é riquíssimo! Pagará qualquer quantia ao senhor, por favor, me deixe ir! – Começou um choro com soluços e lágrimas correntes que me agradaram profundamente.
_A purificação consiste em três partes. Você deve se purificar fisicamente, espiritualmente e depois se purificar perante o mundo. Eu a ajudarei, não se preocupe, Deus aceitará a senhora no Céu! – Aproximei-me dela, despindo a túnica e deixando meu corpo nu. Ela cuspiu em mim e desviou o olhar. O sangue… O sangue… Ela seria purificada, seria purificada! Atrelei-me à ela com força, de todas as formas e de maneira brutal. Espanquei-a e a fiz sangrar, derramando aquele sangue impuro e deixando nascer um novo sangue limpo de impurezas. Ela chorava, chorava, gritava e gemia. Olhava para mim com um olhar terrível de puro ódio, e eu amava tudo aquilo. No fim, ela estava inerte, acordada, mas imóvel e muda. Com os olhos abertos e a boca sangrando, ela perscrutava com o olhar a Igreja. Olhava para os Santos. Eu sabia que o trabalho tinha sido feito e eu estava agora com a glória de Deus. Tudo estava certo, tudo estava certo. Seu corpo estava limpo, seu espírito também. Restava uma parte.
Dirigi até a praça em frente à casa de Fernando e joguei-a na sarjeta. Tranquei o carro. Deixei suas coisas ali perto, no chão. Ela estava nua no concreto, com os olhos fechados, dormindo em paz. No jornal bem cedo eu vi a notícia: Mulher de empresário é estuprada pelo amante em São Paulo. Havia uma foto de Fernando sendo preso. Tudo estava em seu devido lugar… Em seu devido lugar.
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A palavra Trabalho tem sua derivação etimológica do latim Tripalium, originalmente, um instrumento de tortura. Já biblicamente o seu nascimento é devido à expulsão de Adão do paraíso, onde Deus diz a Adão: “… tu tirarás dela [terra] o teu sustento à força de teu trabalho”, sendo ai, então, o embrião da jornada humana contra a natureza. Sociologicamente, trabalho é toda forma de interação entre o homem e a natureza, onde o primeiro controla e regula o intercambio de substâncias com a segunda. Quase a totalidade de brasileiros trabalha sem a menor idéia disto.
A situação trabalhista brasileira é, assim como em maior parte dos países ditos “em desenvolvimento, no mínimo, preocupante. Com quase metade da PEA realizando formas de trabalho informal é notável a falta de consideração do governo para com este seguimento. A observação do economista e professor da UFMG, Ivan Beck é que, no sudeste, segundo os dados do IBGE, as mulheres dominam o mercado de trabalho não remunerado, ocupando 62% dele. Em geral, há mais trabalhadores sem carteira assinada, recebendo em média 240 reais, do que com carteira assinada e, ainda assim, as mulheres recebem menos, em torno de 218 reais, ao passo que os homens recebem em torno de 253 reais.
A conseqüência direta disto é que, no Brasil, o trabalho tornou-se algo hediondo. Os brasileiros em geral não trabalham para viver, eles vivem para trabalhar. Com pouca dignidade, salários abaixo do permitido por lei e com taxas de analfabetismo de países ditos “subdesenvolvidos” a condição brasileira tende a piorar. Megalomaniacamente o país cresce, mas sem uma base para sustentar-se. É necessária a máxima “Quanto maior a altura, maior a queda”. Ao Brasil, a crise eminente. Quem cresce astronomicamente com base de vidro só pode cair miseravelmente. Quem sabe o governo aprenda até lá.
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Avistei-os de longe, prados elísios, curvas de primavera, montes olímpicos. Era toda minha vida uma nova estrada pela frente. Não havia tristeza, pelo contrário, agradecia sinceramente. Toda a paisagem que me cercava era exuberante e bela. O caminho seria novo, mas de forma alguma eu o desejaria menos que tantos outros caminhos que já havia percorrido. Gloria Deus, não havia altos matagais nem árvores que impediam a visão, apenas excepcionalmente lindas planícies circundavam aqueles igualmente belos montes, tão perfumados de uma essência, a mim, tão costumeira e agradável. Estendia-se uma leve penugem pelo caminho, tão aérea que se confundiam o céu e a terra.
Definitivamente, toda aquela situação levava meus sentidos às alturas. Aquele cheiro de arco-íris, com cores de música e de leite. Tudo era tão branco, tão puro. Um caminho tão casto e intocado, com precisos sinais de divindade. Luzes de todas as cores incendiavam meus olhos que fitavam inexoráveis meu destino, sem menosprezar a aventura que arrancaria de cada curva. Decidi prosseguir, com cautela, nos primeiros movimentos, em torno de lindas jóias, cor de ônix que, muitas vezes, vi transbordar de alegrias e tristezas, absoluto de que as faria felizes. Atravessei obstáculos sutis, imagens ledas que me faziam crer que havia realmente um quê de perfeição naquele micro-cosmo de alegria. Deparei-me com um rio e, saciando minha sede em suas águas, não sentia nada além de extravagante alegria. Ele exalava agradabilíssimo cheiro que se confundia entre rosas perenes em seu leito. Imagens oníricas. Atravessei os montes, desvendando suas delicias, seus prazeres e seus segredos. E pelas planícies brancas e puras, tão limpas e iluminadas pelo Sol, que os próprios deuses haveriam de ter construído, eu pude ser realmente feliz. Talvez este caminho fosse bem mais que isso, bem mais que humanos sentidos possam contemplar como eu contemplei.
Finalmente, meu destino foi voar, para bem longe, para ver o caminho que percorri, do alto, vendo toda aquela imensidão intocada, tudo que me fazia sentir tão bem, tudo que me fazia sentir tão completo. Aquele corpo, aquela boca, aqueles olhos, via minha jornada se revertendo em um beijo, em um abraço, em carinho. Talvez, aquelas planícies fossem realmente mais, mais que as curvas de uma mulher. Deus estava mesmo nas curvas dela, não há viagem que se compare àquela. Não havia amor que me fosse tão caro, nem nunca a havia amado tanto. Deus definitivamente está nas curvas de uma mulher.
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Para entendermos melhor o comportamento colonial das bactérias do gênero Shigella, foi colocada em uma proveta fechada uma destas criaturas, normal e apta à fissão. Depois disso, começamos a observá-la em microscopia eletrônica:
Primeiro Minuto: A bactéria começa a movimentar-se, procurando algo. Não podemos imaginar o que.
Segundo Minuto: A bactéria parece procurar outro ser para ser seu amigo? Ela deve estar tão solitária quanto eu neste laboratório. Pobrezinha, sem amigos, sem comida, sem dinheiro. Colocarei uma solução protéica para que ela se alimente e observar os resultados.
Terceiro Minuto: Depois de deslocar algumas cadeias protéicas para parecer uma coroa, um cetro e uma capa, ela começou a discursar:
_Eu me corôo rei desta proveta! Escolhido por ti, oh Grande Cientista, destruidor de átomos, para liderar a todos os seres menores que 300 micrómetros! Sou o rei Shigella IV! Meu poder não será fragmentado com o ataque de bárbaros de outras regiões! Sempre manterei meu exército forte e minhas políticas administrativas coesas com a atual sociedade! Não entrarei em conflito com a burguesia, nem com o proletariado! Admitirei qualquer religião em meu reino e a nossa constituição será embasada nos princípios básicos da vida das bactérias, Fissão, Proteínas e Paz! Quando começarmos uma poderosa indústria eu defenderei os direitos do proletariado. Serei sempre justo! Que nosso império dure mil anos!
O rei Shigella IV, digo, a bactéria continuou com o cetro no ar, num profundo silêncio que reinou após a fala.
Quarto Minuto: Começo a observar a fissão da bactéria. Ela termina a fissão e observa a outra criatura formada. Entreolhavam-se:
_Curve-se perante o Grande Rei!
_Curve-se perante o Grande Rei!
_Eu sou o Rei! Você é meu servo, eu te criei!
_Eu sou o Rei! Você é meu servo, eu te criei!
_Ultraje!
_Miserável!
Quinto Minuto: Observo que em uma tentativa de provar quem é o verdadeiro elas continuam a multiplicarem-se, havendo, durante o fim do quinto minuto, aproximadamente cem delas.
Sexto Minuto: Agora há a anarquia generalizada. Com metade da proveta cheia de bactérias discutindo quem é o verdadeiro Rei, lutando e se destruindo, tentando a todo custo colocar os pseudópodes nas proteínas que eu havia oferecido no segundo minuto.
Sétimo Minuto: A proveta ficou completamente cheia e todas as bactérias começaram a morrer. Desfez-se, assim, o reino do Rei Shigella IV.
Conclusão dos estudos: Nenhuma sociedade é perfeita, mas bactérias em um meio, definitivamente, é cultura.
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Ela chegou do médico com um sorriso cínico e um olhar choroso. Até gostaria de dizer que não era nada, que estava tudo bem, mas eu sabia que era algo grande. Era algo tão grande que, só de vê-la, também correram lágrimas aos meus olhos. Ela trajava aquele jeans surrado e aquela regata branca que gostava tanto, deixando cair de lado a bolsa, com a mão na chave, tentava fechar, trêmula, a porta do apartamento. Eu, de terno, ainda, esperava-a, com um livro nas mãos, agora atônito e triste. Fui até ela, que estava parada, encostada com a cabeça na porta e a mão trêmula ainda na chave. Abracei-a por trás. Choramos por horas aquele dia, abraçados, deitados, no banho, choramos até dormir com os olhos doídos de tanto chorar. Ela, sempre com aquele sorriso cínico. Discutimos as chances, tudo, tudo, mas havia nada mais. Nós dois estávamos, naquele momento, em sintonia com os eventos próximos.
Já estávamos juntos há uns cinco anos e os poucos choros que ela havia chorado eram aqueles de mulher, que vem, de quando em quando, por motivo bobo e banal. Ultimamente ela havia chorado tanto que já não tinha mais as contas. Talvez fosse minha culpa, em que eu havia falhado, meu Deus? Ela me contou, soluçando, naquele mesmo dia, que estava grávida, de verdade. Ter um filho era um dos planos, mas não agora, não era agora, não mais, não havia possibilidade. Não poderíamos criá-lo, nem tê-lo. Como Deus pôde transformar uma benção em uma maldição com tanta facilidade? De certo, o mundo não era o lugar mais justo, muito menos comigo.
Nos dias que se seguiram ela foi se acalmando, tentando resistir, mas chorava, ainda, pelos cantos, à noite. De quando em quando, no trabalho. Duas semanas depois, demitiu-se, acertou as contas e decidiu viajar. Pedi licença e parti com ela. Pelos próximos dois meses nós visitaríamos toda a Europa, os jardins de Praga, os castelos portugueses e os moinhos da Holanda. Divertimo-nos, aproveitamos tudo o que poderíamos ter aproveitado, no que seria nossa última viagem juntos, aquela que estaria para sempre em minha memória. Rezei para que tudo melhorasse, mas já era certo, e o tempo vinha, e nada havia que eu pudesse fazer, além de esperar o pior.
Ao cabo de seis meses daquele fatídico dia ela faleceu. Câncer assintomático. Espalhou-se tão rápido que seis meses era uma estimativa otimista. Descobriu-se por sorte (ou por azar), num exame qualquer, de rotina. A notícia em si não lhe doeu tanto como a outra, que veio dias seguintes, a da gravidez. Não era possível imaginar algo tão feliz se tornando algo tão lascivo e digno de asco. Tive pavor daquela gravidez. Daquela gestação maldita que nunca geraria prole. Foi um enterro simples, com muito choro, em um dia sem nuvens, bem à tarde. Chorei tanto que imaginei que nunca fosse secar. Uma mulher e um filho, em uma só vez…
Mas não foi isso que aconteceu de verdade. O que realmente aconteceu foi bem pior. Eu não derramei lagrima alguma. Não a amei tanto no fim, não soube de nada. Aquele dia, na verdade se resumiu a alguns fatos simples: Ela apareceu no apartamento, com aquele jeans surrado e aquela regata branca que gostava tanto, com as mãos trêmulas e a bolsa caída de lado. Disse-me que não poderia ficar comigo, sem me dar explicações, entregou-me a chave e saiu correndo, descendo as escadas em grandes saltos. Antes que eu pudesse imaginar toda a situação para agir, ela já havia saído da minha vida para sempre. Soube mais tarde, por intermédio de amigos, que ela havia morrido. Não queria ir ao enterro de forma alguma, até que descobri que ela carregava uma criança. Sabia que era meu filho e que ela havia me poupado de toda a história que eu contei acima. Poupou-me do choro, daquele carinho desregrado e incondicional que ela me ofereceria se estivesse partindo ao meu lado. Não sei o que eu havia feito para não merecer compartilhar com ela os derradeiros dias. Qual seria o monstruoso pecado? Será mesmo que valeu a pena? Talvez algo tivesse mudado, talvez nada tivesse sido assim. Todo meu amor havia se convertido em ódio e, durante muito tempo, eu não pude chorar. Tudo se amargou, a vida tornou-se trevosa, nenhuma mulher me parecia vistosa, nenhuma bebida me agradava.
Porque isso tudo? Porque se atrelar tanto à vida de outros e não à sua própria. Já, agora, em reverência à sua lembrança tiraria a minha própria vida. Não consigo imaginar algum porque. Creio que ela, nesta tentativa de me salvar, tenha me matado com ela e agora, com cálice vazio nas mãos e a doce cicuta nos lábios, cumpro a árdua tarefa que me foi passada. Digo adeus para reencontrar-me com ela. O último corte.
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Ele comprou uma dúzia de ovos, leite, açúcar e voltou para casa. Queria fazer um bolo. Desistiu. Pegou os ovos e o leite e resolveu fazer uma omelete. Queijo da geladeira, uma fungada, olhou torto, ponderou acerca da qualidade, desconsiderou alguns pedacinhos verdes e usou-o também. Pronta a omelete, desistiu de comê-la.
Jogou-se no sofá. Agora a barriga dele roncava de verdade. Era aquele ronco clássico que pouco engana aos que passam num raio de um quilometro, destacando maravilhosamente o epicentro, um pobre faminto. Ligou a televisão, algumas centenas de canais, alguns pornôs, alguns jogos de futebol. Nada que o interessasse em meio àquele turbilhão de fome. Seus pés coçavam o carpete cabeludo. Sua cabeça pendia acima do sofá. Seus braços esticados sobre suas pernas. Boca aberta e um gemido de adoentado. Era o seu fim. “Adeus, adeus”. Abriu todas as gavetas e portas de armários da casa. Encontrou vários biscoitos e vários salgados. Nada. Não queria. Pensou em dormir, mas o estomago não deixou.
Seguiu assim sua vida, de dor, de insônia, até que numa quarta-feira, voltando para casa e contra todas as possibilidades de salvação, ele encontrou um pote de Nutela num mercadinho qualquer perto de sua casa. Pegou o pote. Despiu-o. Abriu-o. Comeu-o, e então viveu feliz para sempre. Até a Nutela acabar.
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Um surto absurdo de uso da comunicação on-line começou na década de noventa. Na verdade, o crescimento deste meio de comunicação foi tão rápido que maior parte das pessoas perceberam por completo este advento somente no fim da década, quando todas as tecnologias saíram abruptamente de suas tocas, sobre o rebuliço tremendo que foi o “bug do milênio”. A facilidade de comunicação, a facilidade na obtenção de informações e o acesso a conversas com pessoas de qualquer lugar do globo atraem milhares de pessoas todos os dias. Com os sítios de relacionamentos virtuais a todo o processador (ou vapor, para os do milênio passado) as pessoas tendem a se unir mais a máquina, tornando seus próprios computadores parte delas. Resta a pergunta; Até que ponto os relacionamentos virtuais podem intervir no relacionamento social real?
Os relacionamentos virtuais reais não existem. De certa forma houve uma redefinição da idéia de amor platônico. A comunicação a distancia cria relacionamentos que nada são além de idéias. Fora este circo semântico e seus palhaços ainda são apresentados os leões. Aqueles predadores enjaulados, acuados em quartos esquecidos completamente que existem relacionamentos reais (!) no mundo. No mundo virtual a pessoa pode se expor sem se expor, ela pode mostrar-se como quiser não se sentindo segura com esta personagem, desconecta-se e pode tentar novamente.
Não podemos ignorar de forma alguma o desenvolvimento adquirido por este maravilhoso advento, que nos trás tantas perspectivas e possibilidades. A internet é uma forma nova de interação humana que apesar de brilhante gera vários riscos, assim como toda forma nova que criamos. As patologias associadas ao uso excessivo da internet vêm aumentando quase tão rápido quanto o crescimento de novas tecnologias. Aliás, a criação de novas tecnologias ajuda diretamemte no desenvolvimento destas doenças. As patologias mais comuns associadas ao uso extensivo e excessivo da internet são os transtornos obsessivo-compulsivos o aumento do stress e da impaciência, chegando a casos extremos onde temos o uso de drogas leves e pesadas e até o vício completa. O uso de drogas também é associado a crises de abstinência de internet, como um alcoólatra procure consolo na gasolina. O uso do computador nestes casos extremos é associado a uma falha na vida pessoal, como pobreza, questões no casamento, no trabalho e sociais,quando não, o uso excessivo da internet tende a causar estes problemas.
Pensa-se no mundo virtual como alivio às dores do mundo material. O futuro destas relações é incerto. Enquanto o mundo homogeneíza-se e globaliza-se não há duvidas que cada vez mais as pessoas irão consumir virtualidade. Não restam dúvidas que cada dia mais o homem se afasta dos relacionamentos físicos para viver neste crescente mundo digital.
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Acordei decidida: Deus me colocou na Terra para salvar os Louva-Deus. Aquele documentário na Discovery foi a gota d água! Pobres Louva-Deus, tão injustiçados, esquecidos pelas mãos dos homens, vítimas dos outros animais! Já é findo, agora, o reino de terror que lhes impunham os sapos e camaleões, queridos insetinhos, tomarei medidas drásticas: O prefeito deverá erradicar os sapos das lagoas, dos rios, córregos e banheiros! Vê-la se me importo com as conseqüências.
Eles tentarão me impedir, sim, tentarão, os homens de terno e os de jaleco, dizendo que o progresso será interrompido e estas besteiras. Será mesmo que vale a pena qualquer progresso sem Louva-Deus? O progresso deve ser irmão siamês da proteção ao meio ambiente, sempre juntos. É por isso que, a partir de hoje, nenhuma indústria poderá ser implantada em qualquer habitat de Louva-Deus, estes amabilíssimos e distintos artrópodes.
Nós mesmos, às vezes, matamos um deles. Covardes assassinos que não entendem os direitos dos animais à vida! Tal hediondo crime deve ser punido com prisão perpétua! Ou uma grande multa paga à nossa ONG, Save the Louva-God, que é brasileira com orgulho de ter nome em inglês.
Por isso vos digo: Antes de matar um Louva-Deus, pergunte a você mesmo se ele faria isto com você se tivesse a chance. Louva-Deus, também é gente! Save the Louva-God!
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Agora no Orkut!
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